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Imagem Vertigem - Plataformas


Foto: Ronaldo Santos


Quando ela estava ali, estava sempre em outro lugar. Estação. Plataforma. Espera. Para onde ia o corpo, a cabeça já lá havia chegado. Ou ainda ficava o pensamento no lugar de onde partira. O zunido constante, o ar pesado, as mesmas, mesmas, mesmas palavras. Nas paredes. No autofalante. Dentro da sua cabeça. No hoje, no agora, no instante, ela estava toda ali. Toda? Despedaçada. Nem no antes. Nem no depois. Estação. Plataforma. Cuidado com o vão. Em alguns dias, em alguns horários, em algumas estações, ela experimenta: nem precisa se mover intencionalmente. Deixa que a onda de passageiros apressados a conduza, com certo ritmo, direto da plataforma para dentro do vagão. Não existir, seu corpo integrante e integrando-se ao movimento, sem peso, sem forma, sem limite, o balanço, o rumor dos passos, das vozes, os cheiros todos dela, nela, ela. Até o solavanco necessário, agarrar-se, travar. Distinção. Separar-se da turba. Porque a massa pode levá-la, sem sentir, através. Uma vez, ela mais sente que lembra, não foi rápida o bastante para se diferenciar, a multidão a conduziu de um lado a outro, por dentro do vagão, uma mesma outra plataforma, avesso. Demorou a se saber ela mesma. Como seria diluir-se naquele movimento? Perder-se no vai e vem, dissolvida na batelada. Mas nem. Uns poucos comboios depois, já quase não há gente no cais, fronteiras são traçadas, as pessoas olham estranho quem se aproxima. O moço do boné azul que fala sozinho e todas as quintas-feiras traz uma rosa e lança suas pétalas no trilho. A senhora sem teto que cochila nas cadeiras da estação, embalada pelo zunido elétrico que movimenta os carros. O casal adolescente de gênero indefinido, com ar de quem fugiu da escola, procurando as sombras para trocar carícias. O homem que leva a criança. A mulher com o peso do mundo nos ombros. As pessoas que saem com cara de assustadas do vagão. Os perdidos. Os determinados que partem para as escadas antigas conhecidas. Estação. Plataforma. Espera. Se olhasse bem, encontrava os Pedros Pedreiros ali, ante a linha amarela, esperando que o luminoso indique quantos minutos faltam para o próximo veículo que nunca, nunca, nunca os leva além. E ela. Pensando em qualquer coisa para não saber a vida que acabou. Não podia voltar, cortara todos os laços. Não querer mais. Não havia para onde ir, se o antes era sempre um seu depois. Ficava ali, a plataforma é um mundo. Os passos, os barulhos, o movimento, o ar abafado e a repentina lufada de vento deslocado, a desconexão com o tempo. E o anúncio, o anúncio, o anúncio: cuidado com o vão. É preciso ter cautela. O verdadeiro amor é vão. O pensamento desliza. Cuidado. Com o oco, com o vazio, com o que não tem fundamento, inútil, sem valor concreto. Você olha para o abismo, ele pisca de volta para você, não, não, não confunda, cuidado, é o farol do metrô que se aproxima rápido demais.


Luciana Nepomuceno

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